A Lenda do Cavaleiro Verde

                    A Lenda do Cavaleiro Verde

                           e a dissociação corpo-cabeça

                                                                         Maria Zélia de Alvarenga[1]

 Unitermos: a lenda do Cavaleiro Verde; a importância da raposa como terceiro presente; a sabedoria profunda do masculino; patologias clínicas da segunda metade da vida.

Conta a lenda que num certo dia Arthur e seus cavaleiros estavam reunidos na capela do castelo de Camelot quando chegou o  Cavaleiro Verde. Dirigiu-se a Arthur e exigiu que o rei lhe cortasse a cabeça com  Excalibur. Arthur recusou-se e o cavaleiro ameaçou-o, dizendo-lhe que se não o fizesse, ele, Cavaleiro Verde, cortaria a cabeça do rei. Gawain se adiantou e cortou a cabeça do cavaleiro ofensor. A cabeça rolou pelo chão; o corpo acéfalo caminhou em direção à própria cabeça, e disse a Gawain: “Foste suficientemente corajoso para cortar minha cabeça! Dentro de um ano deverás te apresentar à Capela Verde, quando eu cortarei tua cabeça”.  O Cavaleiro Verde recolocou a cabeça sobre o pescoço e deixou o santuário. Todos ficaram consternados com a má sorte de Gawain. Os dias se passaram e, quando faltava pouco para findar o prazo, o cavaleiro partiu em busca da Capela Verde. Depois de muito caminhar, chegou a um castelo desconhecido onde pediu abrigo. Gawain, recebido com a gentileza sempre dispensada aos hóspedes, foi convidado a passar uns dias  no castelo com o anfitrião e sua linda esposa. Gawain contou sua história e o Senhor do Castelo disse-lhe conhecer a capela. Como restassem ainda alguns dias para vencer o prazo, Gawain aceitou o convite aproveitando o tempo para descansar e recuperar-se para o fatídico encontro. O Senhor do Castelo sugeriu que o jovem jogasse com ele por três dias e, a seguir, o levaria à Capela Verde. O jogo consistia numa troca de presentes. O anfitrião saia para caçar enquanto Gawain permanecia no castelo: tudo que conseguisse durante o dia, em suas caçadas, o Senhor do Castelo traria para trocar com o que Gawain tivesse conseguido ganhar em seu dia no castelo. Aceitas as condições, o jogo assim se deu. No primeiro dia Gawain passeou e conheceu o castelo, acompanhado pela anfitriã que, sempre que possível, aproximava-se amorosamente do jovem cavaleiro tentando seduzi-lo. Gawain resistiu heroicamente até que no final do dia consentiu que a dama lhe desse um beijo. Quando o Senhor do Castelo retornou, trazia em suas costas um gamo. Jogou-o no meio do salão, perguntando: “E tu, que ganhaste?” O cavaleiro de Arthur, apesar de confuso com o que ocorria e ainda inibido pela presença da dama, respondeu com fidelidade: “Um beijo”. Aproximou-se do Senhor do Castelo e beijou-lhe a face. No dia seguinte a situação se repetiu, com intensa sedução da senhora e, ao final da tarde, o jovem cavaleiro cedeu aos encantos da mulher e recebeu as carícias. Quando o Senhor do Castelo chegou, trazia nos ombros um enorme javali e entregando-o, conforme o combinado, perguntou a Gawain o que ganhara. Como resposta recebeu “dois beijos” em seu rosto. No terceiro dia o assédio se intensificou, assustando Gawain que temia não conseguir resistir à tentação, uma vez que era um hóspede e sua honra de cavaleiro estava acima de tudo. Mas a insistência foi tão explícita que não conseguiu resistir, recebendo três longos beijos. Para seu espanto, a Senhora do Castelo entregou-lhe uma fita verde dizendo-lhe para guardá-la pois o protegeria de tudo, inclusive “dos riscos de vida”. Quando o dia terminou, chegou o anfitrião trazendo uma raposa; quis saber o que Gawain ganhara. A resposta soou reticente: “três beijos”, e assim premiou seu anfitrião. Gawain partiu pela manhã em direção à Capela Verde, orientada pelo Senhor do Castelo e apresentou-se ao seu algoz, que disse. “Vejo que cumpriste com tua palavra; ajoelha-te e coloca tua cabeça neste tronco para que eu possa cortá-la”.  Gawain tremia, com medo; ajoelhou-se sem conseguir abaixar a cabeça. O Cavaleiro Verde espera: “meu jovem, tenho uma tarefa a cumprir e tu me impedes de realizá-la!”.  O cavaleiro de Arthur se recompôs e com muito custo ajoelhou-se e deitou a cabeça sobre o tronco: o corpo continuava contraído e tenso. Pela segunda vez o Cavaleiro Verde levantou e voltou a baixar sua espada sem conseguir realizar o intento: “Meu jovem, esperava um homem corajoso diante de mim!”. Gawain não sabia o que fazer, tão desesperado estava; lembrou-se então da fita verde, presente da dama e, agarrando-se a ela com fervor, sentiu seu coração tranqüilizar-se.  Ajoelhou-se contrito, colocando a cabeça sobre o tronco e, tomado por uma coragem desconhecida, esperou o golpe fatal. O Cavaleiro Verde levantou a espada e desferiu o golpe atingindo a testa de Gawain, ferindo-o de raspão.  Gawain levantou-se assustado e para sua surpresa percebeu que sua cabeça estava a salvo e que o Cavaleiro Verde e o Senhor do Castelo eram a mesma pessoa! Confuso e envergonhado, não entendendo nada do que acontecera, ouviu com constrangimento: “Como foste corajoso ganhaste a vida!; como mentiste, eu te marquei com a espada, para que carregues a lembrança de tua falta. Vai, estás  livre, busca os  teus e conta o sucedido”.   Gawain retornou ao Castelo de Camelot e relatou a Arthur e a seus companheiros o ocorrido.  Ainda se sentia envergonhado com sua atitude seja porque omitira parte da verdade ou porque tivera medo e sentira sentimentos nunca antes conhecidos. Salvara sua vida, era verdade, e o Cavaleiro Verde afirmou-lhe que fora pela coragem, mas para isso teve que se deparar com seu próprio medo, medo de morrer, com sua mentira e mais que tudo, com sua fraqueza; sentiu vergonha de si mesmo.   O Rei reconfortou-o como um pai e enalteceu sua atitude dizendo-lhe que ser cavaleiro significava também ser esperto; precisou descobrir que tinha medo para saber-se corajoso e, ao conhecer sua fraqueza pode encontrar a fé na providencia divina, rendendo-se a ela. Tão contente ficou Arthur com a façanha do sobrinho que propôs a todos os cavaleiros da Távola Redonda usarem o fitilho verde em suas lanças em memória de Gawain.

A lenda do Cavaleiro Verde retrata com riqueza de detalhes o rito iniciático de passagem da adultícia para os tempos da segunda metade da vida que,  quando bem vivido, configura condição protetora para o perigo da dissociação “cabeça-corpo”.

O processo de dissociação concorre para o aparecimento de severas patologias clínicas que agridem o ser humano e que serão, neste artigo, enumeradas tão somente como exemplos desse processo simbólico. Como exemplos dessas patologias citamos: quadros hipertensivos, infartos de miocárdio, alterações várias do trato digestivo – gastrites, ulceras, etc- alterações endócrinas, etc, etc…

Quando o Cavaleiro Verde explicitamente ameaça o rei, podemos entender que se trate de uma realidade simbólica que perpassa pelo reino de Arthur; existe o risco do reino estar se tornando  muito centrado no cumprimento  da lei e da ordem, esquecidos da busca do Graal, símbolo maior do feminino continente reclamante de integração.

Se o Graal não for encontrado e integrado, a ameaça da dissociação permanecerá presente. O Cavaleiro Verde exige que Arthur lhe corte a cabeça. A intimação certamente se reveste de significado simbólico uma vez que todos devem ue atentar para o risco da dissociação no qual viviam,  sem se dar conta do insólito.

O rei se recusa a lidar com o conflito e o Cavaleiro Verde responde com a ameaça: “se não me cortar a cabeça, cortarei a sua!”

Gawain, cavaleiro de Arthur, seu duplo e hipóstase, juventude complementar da velhice do rei, aceita o desafio e corta a cabeça do  ofensor;  agiu heroicamente e, por fazê-lo tem diante de si a ameaça de ter sua própria cabeça cortada. Não haveria como ser diferente pois Gawain, sendo a contraparte de Arthur, aceita o desafio de transcender a dissociação e retomar o processo de individuação pessoal e de todo o reino. Gawain terá um ano para se preparar para seu desafio:

O cavaleiro Gawain emerge no mito como expressão arquetípica do herói e, como herói, deverá passar pelos ritos iniciáticos, concorrendo para a ampliação da consciência e estruturação egóica, integrando símbolos em sua consciência. Apesar de apresentar-se como personagem heróico retrata manifestações de ter consciência de seus próprios sentimentos de medo, desejos; passa a se  debater em conflitos:  de um lado deve cumprir suas tarefas como um fiel cavaleiro que assume o dever sem questionamentos, fala a verdade por inteiro, é sempre corajoso e etc. e de outro lado a demanda de exercer-se pelos atributos da raposa. Ao exercer-se, porém com os atributos da raposa (entrada do símbolo raposa na consciência do cavaleiro) toma consciência do medo, do temor da morte, e da vergonha de ter omitido parte da  verdade.

Entendemos que esse é o momento da passagem: Gawain herói-cavaleiro torna-se personagem Ego, humanizando-se pela ampliação da consciência e conseqüente estruturação egóica. Conhecer é saber a própria Sombra. Penetrar em seu reino traz o desconforto de se saber corajoso e covarde, inseguro e temerário, com fraqueza e fortaleza, lealdade e traição. A par da  confusão egóica experimentada, a vergonha  de si  mesmo emerge  quando o símbolo estruturante-raposa compõe a consciência com ambas as polaridades, até então vividas como realidades excludentes ou com uma delas projetada no outro. Dessa forma, o sentimento de vergonha de Gawain decorre da consciência  que teve  da própria Sombra.

Gawain até então foi a expressão do masculino heróico pautado no caráter  puro-tolo-ingênuo, cumpridor de tarefas, a serviço do dever, empenhado acima de tudo em ser cavaleiro da Távola Redonda; herói é o que faz, não pensa. Dessa forma, Gawain só poderia receber o presente-raposa, representando sagacidade, esperteza, astúcia, após ter integrado o gamo (morte e renascimento e portanto competência para a transformação dos tempos novos da consciência) e o javali ( poder espiritual para acessar a sabedoria profunda); mas, somente após receber e integrar a raposa, como atributo de sua personalidade poderá suportar a condição de omitir parte da verdade – o fitilho verde que recebera de presente da Dama do Castelo.

Gawain relata seus sentimentos a Arthur, que nesse momento configura realidade simbólica  do velho sábio, que ao acolher o cavaleiro confirma sua aprovação à atitude de Gawain. O rito  de passagem aconteceu e o cavaleiro tornar-se-á  sutil e matreiro como a raposa, fugidio e volátil como Hermes, brincalhão e embusteiro como todo trickster. Tendo sido acertado na testa, Gawain  passará a ter  marcas, cicatrizes que comprovam sua individualidade, sua imparidade psíquica. O Cavaleiro Verde e / ou o Senhor do Castelo são hipóstases complementares de Arthur, hipóstases portanto do Velho sábio, conduzindo a iniciação do cavaleiro Gawain nos ritos de passagem da idade adulta, para a segunda metade da vida, tempo de envelhecer com sabedoria.

Somente a aquisição da sabedoria profunda nos faz competentes para beber o chá na hora de beber chá, viver um dia de cada vez, matar  o leão nosso de cada dia com a tranqüilidade de quem sabe matar leões, sem alardes, sem crises hipertensivas nem insônias.

Qual a importância simbólica desse rito de passagem? Venho me perguntando

Esse rito de passagem é a oposição à dissociação cabeça- corpo e, por assim se traduzir, retrata, no meu entender, a competência para, em sendo inteiro, ou seja, com corpo-cabeça, integrar competências simbólicas e concretas do herói.

As competências estruturadas passam a ser símbolos da consciência e portanto competência do EGO. Assim estruturado sabe-se com competência- poder- para realizar tarefas e mais que tudo com competência pa escolher se realiza ou não a tarefa.

Diante do mundo, do outro e de si mesmo passará a se deparar com questões  sabendo de antemão que:

  1. Se fizer uma pergunta, será capaz de encontrar uma resposta;
  2. O tempo para encontrar a resposta será diferente para cada pergunta formulada;
  3. Para  cada resposta encontrada, outras  perguntas surgirão como tarefas próprias, desafios para seu caminho;
  4. Para cada pergunta que formular, encontrará respostas que satisfazem somente a si mesmo;
  5. Que só poderá responder às próprias questões e nunca a dos demais.

A sabedoria profunda conferida pelo Velho Sábio torna o ser humano competente para sair da imposição do dever de provar competência para a condição de se saber competente para cumprir  a tarefa mas com a liberdade de escolher cumpri-la ou não.   De uma dinâmica do Ego assistido pelo herói patriarcal passa-se a uma dinâmica de Ego assistido pelo Velho Sábio. Dessa forma a sagacidade da raposa aconteceu

Resumo: a autora apresenta leitura simbólica da lenda arturiana do Cavaleiro Verde correlacionando os presentes ganhos por Gawain como aquisição de competências de personalidade necessários ao rito de passagem da vida adulta; essa transformação traz sabedoria profunda traduzida pela sagacidade e poder de escolher.

Abstracts: the author presents symbolic reading about the Arthurian legend of the  Green Cavalier correlating the gifts that were gained by Gawain as acquisition of personality competences necessaries to the passage ritual of grown-up life; this transformation brings deep wisdom translated by sagacity and power of choice

                                                                        Maria Zélia de Alvarenga


[1] Médica, psiquiatra, analista junguiana pela SBPA-IAAP.

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