A Política

A Política

“O homem é a medida de todas as coisas, enquanto são, das coisa que não são, enquanto não são”

(Protágoras – in “ A Verdade” ; citação em: Protágoras- )

                                                                                               Maria Zelia de Alvarenga

 Palavras Chaves: política; mito Prometeu e Epimeteu; Protágoras; diké e aidós; discurso forte e fraco; política e individuação;

  1. 1.      O Mito

Platão, em seu diálogo “Protágoras”, relata o encontro do sofista de mesmo nome com Sócrates (PLATÃO: Protágoras – 320c e seguintes).  Protágoras conta, a pedido de Sócrates, o mito da criação do homem, e sobre as atribuições de qualidades e competências às criaturas. Sua fala é uma tentativa e fundamentação para justificar seu entendimento de que as virtudes podiam ser ensinadas, contrargumentando com Sócrates que entendia serem as virtudes qualidades inatas.

O texto constitui-se numa das mais preciosas lições da sabedoria grega sobre as relações entre a técnica, a ética, as virtudes e a necessidade da arte política

Segundo Protágoras, no tempo da criação dos homens e animais, os deuses decidiram confiar aos irmãos Epimeteu e Prometeu a incumbência de determinar e distribuir as qualidades e competências a cada espécie. Epimeteu solicitou ao irmão que o deixasse fazer o serviço, ficando Prometeu encarregado de conferir o trabalho. Após o acordo, Epimeteu inicia sua tarefa e distribui as qualidades de modo que todos os animais terrestres, apesar de suas diferenças, tivessem igual possibilidade de sobrevivência. Para evitar que se destruíssem, atribuiu a certas espécies a força sem a velocidade, dando a outras a velocidade sem a força; a fim de protegê-los das intempéries, Epimeteu revestiu-os de peles ou carapaças adequadas; no intuito de preservar o equilíbrio ecológico, decidiu que cada espécie teria o seu alimento próprio no reino vegetal, e que, quando alguns fossem alimentos para outros, estes seriam menos fecundos que os devorados, de modo a garantir a sobrevivência de todo o reino animal.

Epimeteu estava para convocar o irmão para conferir seu trabalho, orgulhoso da tarefa consumada, quando se deu conta, do insólito: distribuíra todas as faculdades disponíveis entre os animais irracionais e,  nada sobrara para o ser humano que nasceria pelado, sem competência para sobreviver no frio e na chuva. Prometeu chega e encontra Epimeteu desolado.

Que fazer?

Como as qualidades destinadas aos humanos estavam esgotadas, só restava buscar atributos com os próprios divinos.  E, Prometeu tomou a decisão ousada: subiria ao Olimpo e subtrairia de Hefesto os atributos de fogo e de Palas Atená  a sabedoria das demais artes técnicas e capacidade inventiva para criar os próprios meios necessários à sobrevivência.

E assim se deu. Os homens puderam construir suas casas, suas roupas, fazer suas plantações; usariam os animais para aliviar seus esforços, criariam novos meios de subsistência e sobrevivência: os homens passariam a interferir na natureza.

Cedo, porém, os homens revelaram-se incapazes de encontrar um meio de convivência harmônica, uma vez que não tinham atributos para tanto: faltava-lhes arte para bem gerir seus haveres, suas propriedades, as relações com seus pares e também com seus vizinhos, cada vez mais numerosos.

Os homens ignoravam a arte política (politika sophia), que era nada mais nada menos que um atributo próprio de Zeus, e Prometeu não tinha como obtê-la

Felizmente para a humanidade, Zeus compadeceu-se da situação aflitiva dos  homens que estavam destruindo-se uns aos outros em dissensões e guerras contínuas.  Zeus temeu pela sobrevivência da espécie humana, a primeira de tantas que poderia perecer. Decidiu enviar Hermes como seu mensageiro pessoal, recomendando-lhe que atribuísse aos seres humanos sentimentos de justiça (dikê) e de dignidade pessoal (aidos), sem os quais não haveria como sobreviver. Justiça (dikê) e dignidade pessoal (aidos) constituir-se-iam  em ingredientes fundamentais na estruturação da arte política (politika sophia), de boa convivência.

A palavra aidos pode ser traduzida também como vergonha ou pudor. Na Grécia antiga “a maior força moral que o homem conhecia não era o temor aos deuses, mas o respeito pela opinião pública – aidéomei”(KRAICHETE 2000, pg 9); dessa forma, se o homem não tiver aidos, não se ocupará de como seus atos serão julgados e qualificados pelo coletivo.

Antes de partir para a Terra, Hermes questionou Zeus sobre como distribuir o dom da arte política, ou seja, se da mesma maneira que a habilidade técnica que não fora dada a todos indistintamente, mas sim na proporção de um especialista para cada grupo mais ou menos numeroso de não-especialistas, ou se igualmente a todos.  A resposta de Zeus foi categórica: todos os homens deveriam possuir a arte política, pois, caso contrário, se apenas alguns fossem nela instruídos, não haveria harmonia social e a espécie humana acabaria por desaparecer da face da Terra. O pai dos deuses recomendou mesmo a seu mensageiro que instituísse inclusive a pena de morte para todo aquele que se revelasse incapaz de praticar a arte da política, pois ele seria como que o incitador de desarmonia. Se todos dessa forma agissem, a esperança de uma nova vida  renasceria.

  1. 2.      O Discurso

Segundo Protágoras (PROTÁGORAS 2001), cada indivíduo sendo a medida de todas as coisas, é fraco quando fica somente com suas idéias. O discurso precisa ser compartilhado, congregando opiniões. Quando o discurso de um encontra a aliança de outro, seja pela lógica, pela exuberância da retórica ou pela inflamação de quem fala o que pensa e o que faz, o discurso torna-se forte e efetivo

Protágoras apregoava que discurso forte e prática política são realidades que se casam, se conjugam indelevelmente, constituindo–se no bem maior auferido pela democracia.

Hermes distribuiu, por consentimento de Zeus, entre todos os homens a virtude da política cujas competências são a justiça e o respeito ao próximo.

Dessa forma, a arte política, a maior de todas as virtudes, redunda numa condição de que diante de problemas democráticos, todos os homens podem e devem fazer seus pronunciamentos, congregando todos e tudo para o bem comum.  A omissão, o silêncio diante dos desvarios de alguns configura pecado de (e em) todos nós.

  1. 3.      A Guerra.

Os quatros cavaleiros do Apocalipse têm no primeiro deles o elemento mais terrível e que expressa o final dos tempos. Seu significado é guerra, e configura em si mesmo os sentidos simbólicos dos outros três, que representam a dominação, a peste e a fome. A guerra é a maior manifestação de desordem social e traz consigo a peste, a fome, a miséria, a opressão, a vergonha, a humilhação. A guerra é sinônimo de estupro social, invasão do mais forte sobre o mais fraco, violência e desrespeito total à integridade e identidade do outro.

Justa se diz que é a guerra quando feita em nome da defesa do próprio estado  ou de outro fragilizado, sem competência  para crescer com a própria identidade, uma vez que foi agredido, violado por um agressor.

A guerra é, pois, a ausência ou negação da competência política, enquanto arte de bem governar, respeitando os muitos valores estatuídos e estabelecidos ao longo da vida de todos os povos e indivíduos.

  1. 4.      A Política.

Política será, portanto a arte de reger as diferenças, sempre alicerçada na justiça e dignidade pessoal. O exercício da arte política, congregação de tão diferentes misteres revela o quanto cada um de nós, indivíduos ou sociedades, povos e nações, caminhamos no sentido de estruturarmos nossos processos de individuação. O encontro do caminho dependerá, por certo, da mudança de paradigma que “requer expansão não apenas de nossas percepções e maneiras de pensar, mas também de valores;… se enfatizarmos em excesso as tendências auto afirmativas negligenciaremos as integrativas” (KAPRA -2003-p 27)

A Política, quando exercida sombriamente, serve-se da afirmação excessiva da posição na hierarquia de cargos, como se o exercício dos mesmos significasse e conferisse poder “divino”. O poder decorre da influência que o outro concede o que implica uma concepção nova de relações. O que estrutura não é mais a hierarquia mas sim a rede de interações e inter-relações num todo sistema complexo.

 

  1. Sinopse:

Relato do mito Protágoras e de como o homem precisa ser político. Política e os novos paradigmas do poder e do relacionamento como requisitos de individuação

  1. Abstracts:

Tale about Protagoras myth where the man need becomes a politics man. Politics and power new paradigms and relationships as individuation requisite

 

  1. 7.      Bibliografia
  2. CAPRA, F. (2003): A Teia da Vida, Editora Cultrix- SP
  3. KRAICHETE, N. (2000): A Vergonha em suas Dimensões arquetípica pessoa –  monografia de conclusão de curso – acervo da SBPA- RJ
  4. PLATÃO (2001): Protágoras; Relógio D´Água Editores Portugal
  5. 4.      PLATÓN(1999): Projeto Filosofia em español” http://www.filosofia.org/ pfe@filosofia .org ( acesso em 20/05/2003)
  6. PROTÁGORAS (2001): A Verdade;  Relógio D´Àgua ed. Portugal

Texto publicado na Junguiana n. 21

                                                                                              Maria Zelia de Alvarenga

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