“Liberdade é Escolher Deus”

Jung: Individuação e Religiosidade [1]

“Vocatus atque non vocatus Deus aderit” [2]

Todo ser humano, independentemente do tempo, da idade, da raça e da cultura,

tem respostas para todas as perguntas  que possa formular a si mesmo..[3]

Maria Zelia de Alvarenga[4]& David Alves de Souza Lima[5]

Quando eu era jovem, muito jovem e ainda estava nos primeiros anos da faculdade, apareceu por lá uma freira, doutora em filosofia e teologia, que, por solicitação do centro acadêmico, dispunha-se a dar aula de religião. E, lá fui eu buscar respostas.

A sóror entabulou conversa comigo, ou melhor, ela falava e eu ouvia, quando num determinado momento, ela me perguntou como entendia eu o conceito de liberdade. Na época, devo ter respondido que liberdade é uma condição de poder circular, escolher, fazer coisas, pensar no que bem entender e não sei mais o que.

A freira, e até hoje vejo seu rosto vermelho, gorducho, queimado de sol, me olhava sorrindo quando fez uma colocação, com a maior convicção possível, e que me causou impacto, o impacto de estar diante de um paradoxo:

Liberdade é escolher Deus!

E ela continuou: nós somos livres somente quando escolhemos Deus.

A minha juventude protestava: como posso ser livre se não tenho opção de não escolher?. A minha incompetência para compreender me fazia pensar que a freira estivesse fazendo afirmações dogmáticas, decorrentes de sua crença católica.

Liberdade é escolher Deus!

Ao longo dos anos a frase permaneceu ressoando em mim. Entretanto, o paradoxo que assolou minha psique aos poucos foi-se transformando. E, a transformação só foi possível com amplificações sucessivas que busquei, e que mais e mais me fizeram entrar no mundo mágico do mito, no mundo mágico da metáfora psíquica, no mundo mágico do inconsciente.

Liberdade implica escolher Deus!

O paradoxo continuou não sei por quanto tempo, até que pude compreender, imersa em mitos e ritos, que o paradoxo é uma realidade contraditória somente para a dimensão egóica, mas não para a totalidade da psique. Pude, então, compreender que a afirmação: Liberdade é escolher Deus! – é uma verdade que emerge do inconsciente, do grande inconsciente coletivo, sendo decorrente da própria estrutura arquetípica que alicerça a sua formulação.

Liberdade é escolher Deus! é uma assertiva decorrente do próprio arquétipo de Deus ou do Self e, assim sendo, para a totalidade da psique não configura um paradoxo. Mas, para que esta compreensão se estabelecesse, foram necessários anos de trabalho psíquico que se traduziram numa rendição do ego e da consciência questionadora que não suportam perder a primazia.

Assim, talvez hoje possa eu entender os conflitos emergentes naquela época e me desculpar a mim mesma e dizer com compreensão: como pode alguém render-se ao Self quando se tem vinte e poucos anos e se é aluna de uma faculdade de medicina que prima por dissecar cadáveres e procurar no reduto de cada mitocôndria explicações para as dores da alma?

Quarenta e alguns anos são passados e estou eu aqui, agora, na presença de vocês para começar minha fala afirmando: Liberdade é escolher Deus!

Quando me propus escrever este texto, de início o pensei como uma correlação entre pressupostos da Psicologia Analítica, emitidos por Jung acerca do processo de individuação e os pressupostos emitidos pela religiosidade na qual culturalmente eu fora criada, ou seja, a cristã.

O antigo e tão atual paradoxo, entretanto voltou a minha memória, ressoando como algo que exigia a melhor de todas as atenções para que o processo que me levou a elaboração simbólica adquirisse lucidez plena de consciência. Essa lucidez de consciência conferiu-me uma certeza maior de convicções de que as realidades elaboradas, ao longo dos anos, são hoje componentes de minha própria identidade e não somente conceitos aprendidos e apreendidos pela informação. E, uma certeza eu tenho hoje, certeza essa que me faz afirmar com convicção: Liberdade é escolher Deus!

Esta convicção me faz saber que o processo de individuação, a par de ser um fenômeno humano ímpar segundo o qual, por uma condição intrínseca da própria natureza, a psique global tenta heroicamente tornar-se una, tornar-se pessoa, tornar-se indivíduo, é também um processo que se faz  permeado pela consciência de ser, em si mesmo, um processo de religiosidade, ou seja, um processo de religação com (e reintegração a) a  divindade ou ao Self ou ao arquétipo de Deus, ou um processo da criatura em busca do criador.

Individuar, pois, nesse sentido, é buscar Deus, buscar o Self, ser nele.

A meta do processo, segundo Jung, é que a pessoa se torne o que ela é, ou que se torne como o que nasceu para ser.  O processo de individuação em si é natural, espontâneo e, portanto, intrínseco à natureza humana, traduzindo uma realidade arquetípica, um fenômeno que assim se dá e se faz. O destino de cada um é encontrar-se trilhando os caminhos que o levem à totalidade.

Jung afirma: Individuar é realizar o Self, sendo nele.

Há pouco eu dizia que o paradoxo que me afligiu, pedia atenção e a maior clareza de consciência. Pois bem: se individuar implica realizar consciência, como afirma Jung, sinto ser necessário discorrer um pouco mais sobre a qualidade dessa consciência.

A consciência a ser realizada ou atualizada deverá ser a mais ampla possível, no meu entender, com o caráter de lucidez profunda, prenhe de sua maior luminosidade, imbuída de competência reflexiva; consciência reflexiva que me faz saber-me mais eu mesma e que concomitantemente compõe consciência do mundo e no mundo; consciência que me faz realidade do mitologema da terra única. Consciência que se estabelece veiculando conformidades para que outros se tornem conscientes e que, ao mesmo tempo, é decorrente de conformidades estabelecidas por outrem.

Dessa forma, quanto mais consciência estiver estabelecida mais o próprio universo se tornará consciente de si mesmo, interagindo reciprocamente para que cada um se torne mais e mais consciente de si e de sua condição de componente da totalidade. Assim, a luminosidade de[6] consciência de alguns gerará competência para que outros adquiram consciência.

Num texto citado por Lawrence W Jaffe (2002)  o autor afirma que “ uma forma alternativa para (se) compreender a idéia de interação da consciência é refletir sobre a hipótese do biólogo Rupert Sheldrake relacionada com a “ressonância mórfica”. Segundo essa idéia, a forma e o comportamento de plantas e animais podem ser alterados “pela forma e pelo comportamento de organismos passados da mesma espécie por meio de conexões diretas tanto através do espaço quanto do tempo. Um exemplo de ressonância mórfica pode ser o seguinte: se pesquisadores no Kansas treinarem ratos a percorrer um labirinto novo e difícil, os ratos em Londres, na Inglaterra, precisarão de menos tentativas para vencer os obstáculos desse mesmo labirinto. Não é que os ratos ingleses sejam mais inteligentes, mas sim que, supostamente, o progresso de aprendizado alcançado pelos ratos de Kansas é de algum modo comunicado aos seus primos estrangeiros. Existem evidências consideráveis, tanto anedóticas quanto experimentais, que sustentam a teoria de Sheldrake, (…) Outro exemplo, tomado do mundo inanimado, é a grande dificuldade de cristalizar uma substância química pela primeira vez, em contraste com experimentos subseqüentes. Uma substância já cristalizada na Austrália, digamos, será muito mais fácil de cristalizar em Milão, ainda que não haja comunicação entre os dois laboratórios. A hipótese de Sheldrake implica que enquanto é com dificuldade que uma forma ou evento ocorre pela primeira vez na história, a probabilidade de que ele irá recorrer aumenta significativamente depois da primeira ocorrência. Essa idéia é importante porque sugere que mudanças na psique coletiva podem ser causadas por mudanças nas consciências individuais”[7].

Já  sabemos que Individuar é realizar o Self, sendo nele;  que Individuar é também realizar consciência. Ao realizarmos consciência, na realidade integramos símbolos através de um trabalho insano de discriminação entre quem sou e quem é o outro. Esse complexo simbólico formado pela somatória de símbolos que eu sou, me traz (e me faz com) competência para o exercício do maior de todos os desafios – tornar-me a imparidade, a individualidade plena e, ao mesmo tempo ser o/a escolhido/a.

Realizar o processo é escolher ou ser o escolhido?

Fazer perguntas é um hábito bendito ou maldito, não sei, que sempre tive! Há muitos anos atrás passei por vivência insólita em que uma “fala” se manifestou em mim, comunicando o seguinte: “todo e qualquer ser humano, independentemente do tempo, idade e condição cultural tem respostas para toda e qualquer questão que for capaz de se fazer!”.

Desde então nunca mais respondi questões de quem esperava respostas prontas. Quem faz as perguntas, deverá buscar as próprias respostas. As minhas perguntas, respondo eu. Assim quanto à pergunta:

Realizar o processo é escolher ou ser o escolhido?

Para responder a esta questão parto de uma proposição singular, qual seja: O Self tem no herói seu filho dileto, seu mensageiro, seu porta-voz, seu escolhido.

E quem é o herói? O herói é aquele que “transforma a humanidade em homens e mulheres ímpares. Quando falamos de heróis e heroínas contamos histórias de nossas próprias vidas. O herói é a criatura que permeia a vida preenchendo-a de sentido: em si mesmo o herói é o próprio buscar-se.  O herói não é a meta mas a dinâmica do processo da busca incessante.  Falar do herói é dizer do que cada um tem de esplendor radiante e único, quando se busca.

E aí reside o fascínio do coletivo quando o herói desponta. A glória do divino repousa no que o herói tem de imutável e eterno. A efemeridade do humano dá-lhe um destino. O cumprimento do destino humano se fará  através do que o herói tem de divino e eterno.

A realidade das ações, das gestas heróicas em cada um de nós, aparentemente isoladas, parece obedecer, entretanto a uma espécie de “plano predeterminado”, levando a um fim, em cada um de nós. Há como que um processo insondável que se atualiza por um desdobrar-se de reclamos, nem  sempre conscientes, que vão compondo uma história, um caminhar exclusivo”[8].

Esse caminhar exclusivo, essa espécie de plano predeterminado que leva a um fim parece configurar certamente um outro grande paradoxo, o paradoxo de sermos realidade de um plano predeterminado.

O processo de individuação não se faz sem herói. Quando o ego se expulsa ou se sente exilado do eterno rotundo, deverá caminhar como um Caim maldito, marcado com o selo do criador, condenado a conhecer as agruras do inferno até que tenha descoberto na alma a necessidade de render-se ao criador e humildemente  bater sua cabeça no chão.

Este é o momento de Dante quando canta: “a meio caminho da vida, perdido achei-me numa floresta escura,..”  ou de São João da Cruz  em sua travessia da noite escura da alma

Muitos são os chamados, poucos os escolhidos: a opção de aceitar o chamado, única condição que traduz liberdade para tornar-se o que nasceu para ser, pontifica o processo de individuação.

Nesse caminhar tão solitário, onde não existe um caminho, continuamente somos assolados por expressões de dor de alma que se revelam nas insatisfações do cotidiano, no desespero da busca de sentido, na sensação subjetiva de sentir-se apartado de si mesmo, cindido, na eterna dúvida de nunca ter certeza de nada.

O chamado do Self, porém, não cessa nunca e para  conseguir aceitá-lo  muitos são os sacrifícios a serem feitos: aceitar a travessia, descer ao reino dos ínferos, viver a jornada heróica, cumprir tarefas insanas, envergonhar-se com as fraquezas e covardias. E, certamente, não há como enfrentar o desafio do chamado sem passar pelo caminho da noite escura.

Saber-se como herói/heroína de seu próprio processo, obedecendo a uma espécie de “plano predeterminado”, que leva a um fim, em cada um de nós, nos faz escolhido/a, por princípio. O processo de individuação, como afirmamos acima, é em si mesmo natural, espontâneo e, portanto, intrínseco à natureza humana. Inegavelmente muitos são os impedimentos para que a natureza se realize mas, a aquisição de consciência de que eu nasci para ser me torna responsável por retomar minha liberdade de ser o que nasci para ser . Dessa forma, ser livre implica escolher Deus, escolher individuar! Portanto realizar o processo é ser o escolhido e é escolher!

Antes de terminar minha fala, gostaria de complementar com o que David, meu filho, me relatou.  Com suas próprias palavras, ele nos conta de suas vivências as quais, no meu entender, são o retrato vivo do que considero  “ o chamado”, o sentir escolhido e o grande conflito vivido antes de se render e aceitar escolher…

“Não sei muito bem quais os reais motivos que fizeram com que eu parasse, em 1996, com os dois cursos que fazia (Direito-Puc e Esporte-Usp ) para ir fazer Medicina. O engraçado é que quando prestei vestibular pela primeira vez, logo após o colegial (1992), passei em esporte na Usp, porém, resolvi não fazer pois estava  indo para os Eua morar um ano lá.   Fui fazer intercâmbio.  Retornando, fiz um ano de cursinho e prestei Direito e Medicina. Passei em Medicina em Taubaté e em Direito na Puc e fui fazer o que? Isso mesmo! –  Direito na Puc em SP. Após um ano de Direito na Puc resolvi novamente prestar Esporte, na Usp, e passei. Estava agora em dois cursos universitários. Ficava o dia inteiro fora. Foi aí que após 3 anos de Direito e dois de Esporte resolvi abandonar os dois e prestar novamente Medicina. Fiz novamente um ano de cursinho; prestei exame, passei e acabei de terminar o curso de Medicina.

A estória toda é meio confusa, cheio de idas e voltas, assim como acho que sou também.   Tentarei explicar os motivos que me fizeram tomar esses diferentes rumos: não sei se conseguirei. Algumas explicações: a primeira delas é que algo me dizia que eu tinha que fazer Medicina. Já tinha tido essa vontade muitas vezes na minha vida, mas quando tive que decidir pela primeira vez, como vocês sabem, fui em outra direção.

Por que?   É o que tento explicar. O problema é esse `algo` que é muito vago e meio sem lógica, mas era algo que batia muito bem com o que estava acontecendo comigo. Sabia que esse era o caminho que tinha que tomar, mesmo ficando em dúvida muitas vezes.

Dei trabalho para muita gente.

Hoje não me arrependo das coisas que fiz. Com certeza tudo isso está inserido no meu processo de individuação, que ainda não terminou. se é que um dia termina.

Talvez uma outra explicação seja o fato de na minha família ter muitos médicos. Isso de certa maneira não me agradava muito, pois parecia que eu estava seguindo os passos (copiando) o que já havia sido feito. Hoje sei que não é o fato de fazer o mesmo curso que faz você igual ou diferente das pessoas.

Você se faz diferente por você mesmo.

Outra coisa é que gosto de estar em contato com as pessoas e de tentar  ajudar, pelo menos um pouco, as pessoas que procuram por ajuda de alguma forma. Não que a Medicina resolva muita coisa, mas acho que as pessoas que com ela trabalham conseguem pelo menos aliviar algumas das muitas dores que temos.

Tomara que eu esteja no caminho certo e que um dia, se Deus quiser, consiga enxergar e entender esse imenso todo”.

Jung, seis meses antes de seu falecimento, em conversa com G. Adler confessou: “Eu tinha de compreender que era incapaz de fazer as pessoas verem o que procuro. Estou praticamente sozinho. Uns poucos compreendem isso ou aquilo, mas quase ninguém vê o todo… Fracassei em minha tarefa mais importante: abrir os olhos das pessoas para o fato de que o homem tem alma e que há um tesouro enterrado no campo e que nossa religião e nossa filosofia estão em estado lamentável. [9]

Faço deste texto uma homenagem a Jung. A escolha da Psicologia Analítica não foi por acaso, mas também fez parte de um plano predeterminado. Certamente não consegui ver o todo, mas tenho a plena convicção de estar desenterrando meu tesouro.

Referências Bibliográficas:

  1. ADLER,G.( 1975) “Aspects of Jung’s PersonaIity and Work,” in

Psychological Perspectives, vol. 6, no. 1 (Spring 1975), p. 14.

  1. ALVARENGA, M. Z.( 1999) O herói e a emergência da consciência psíquica, Junguianma,17: 47-56
  2. BRAGARNICH, R ( 2002): Um Adágio em Küsnacht: trabalho apresentado no X Simpósio Internacional de Psicologia Analítica em Itu, 2002 consulta Internet pg http// :www.ajb.org.br/jung-sp/artigos/ak_rubens.html  ( em 03/11/2003)
  3. JAFFE, L. W. ( 2002)  “ A Alma Celebra” ed. Paulus- SP

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[1] Texto apresentado no XVII Moitará em Campos do Jordão-SP em 21/22/23 de nov/ 2003

[2] . Tradução: “Evocado ( invocado) ou não evocado (invocado) Deus está presente” Este pensamento foi extraído por Jung do Collectanea Adagiorum, uma coleção de provérbios e sentenças de autores antigos gregos e latinos, obra de juventude de Erasmo, publicada exatamente em 1500 e que teve uma 2º edição ampliada em 1508. Este provérbio deve encerrar grande importância e significado para Jung, pois foi esculpido, em sua forma latina, no frontispício de sua casa em Küsnacht, sobre a porta de entrada, como também irá se eternizar na lápide, junto a outras duas inscrições em sua tumba no cemitério protestante da Zurique. (…) O adágio de Küsnacht tem sua origem em Delfos, depois Castri, na Esparta grega, mais exatamente no templo e oráculo dedicado a Apolo ( Rubens Bragarnich-2002)

[3] Pensamento de Maria Zelia de Alvarenga

[4] Médica, psiquiatra, analista junguiana SBPA.

[5] Médico

[6] A New Science of Life: The Hypothesis of Formative Causation, quarta capa

[7] Pgs 34/35 Lawrence W Jaffe “ A Alma Celebra” ed. Paulus 2002

[8] Alvarenga, M. Zelia.( 1999) O herói e a emergência da consciência psíquica, Junguiana,17: 47-56

[9] Citado por Gerhard AdIer, “Aspects of Jung’s PersonaIity and Work,” in Psychological Perspectives, vol. 6, no. 1 (Spring 1975), p. 14.

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