O Pomo da Discórdia

Existem momentos míticos tão cheios de humor quanto de sabedoria que nunca é demais lembrá-los para nosso próprio deleite. Deparei-me outro dia a refletir sobre o Julgamento de Páris.

Conta o mito que Zeus, alertado por Prometeu, não deveria consumar envolvimento algum com Tétis, uma vez que dessa relação haveria de nascer aquele que superaria, em poder, a todos os demais olímpicos. O Soberano maior apressou-se em promover o casamento da formosa deusa com o jovem Peleu. As bodas foram celebradas com grande banquete, que marcou história. Todas as divindades foram convidadas e a alegria povoava o Ágape quando, surgiu Éris injuriada com o esquecimento proposital. Para surpresa de todos, a deusa adentrou o salão engalanado, jogando sobre à mesa o tão conhecido Pomo da Discórdia. O endereço não deixava dúvidas: para a mais bela, e o desentendimento estava implantado. Incontinente, formosas deusas disputaram a posse do presente: Hera, Atená e Afrodite.

Contam, à boca pequena, que o diálogo estabelecido não foi dos mais elegantes, nem castiço o vernáculo.   Diante do impasse, mestre Zeus se viu convocado para ajuizar sobre a quem de direito. A velha raposa, com suas longas barbas e cabelos cãs, já avançado em seus anos de prudência, eximiu-se de tão perigosa tarefa; chamou seu amado filho Hermes, divino mensageiro, incumbindo-o de buscar um humano, de conhecida beleza, para presidir o julgamento que se fazia necessário. Páris, o jovem príncipe troiano, ignorante, ainda, de sua nobre ancestralidade, deveria apresentar-se para cumprir seu destino.

No contexto da mítica grega, esse é o primeiro momento em que a divindade delega ao homem-ego-consciência a condição de assumir-se como condutor de seu próprio processo. E mais, destoando acentuadamente da mítica judaica que colocava  ao homem o interdito de comer a maçã.

Hermes conduziu as três candidatas e seu juiz ao monte Ida; instruiu Páris sobre seus deveres e solicitou que as deusas se colocassem à disposição do jovem campônio. O troiano invocou sua condição de pobreza, ignorância e incompetência para tão grande encargo. O deus dos pés alados alertou-o com a lembrança de que o Self exigia-lhe o feito heróico.

– Como! Ainda não estou pronto!

E essa deve ter sido a resposta do ego amedrontado, similar a que qualquer um de nós invocaria. Entretanto, presente de Zeus não pode ser recusado!  Ou seria presente de grego!

E o julgamento assim aconteceu!

Páris, ainda indeciso e titubeante, perguntou a Hermes se deveria promover à escolha, estando as concorrentes vestidas.

 Preferes que elas se apresentem nuas?  Retrucou o Trickster.

– Seria conveniente, confirmou Páris.

As belas damas aparentavam não ter gostado da proposição, ou melhor, duas delas, uma vez que Afrodite não se demorou em cumprir a regra. Atená questionou se não poderia manter seu escudo, para o que a deusa do Amor refutou com galhofa: certamente que não, minha querida!  E, se possível, queira por gentileza, retirar esse capacete: tu ficas horrível com ele.

Páris acenou para Hera e a deusa dos casamentos lícitos se aproximou. Com sua conhecida autoridade intimidante, fitou o jovem dizendo-lhe:

– Se me escolheres, far-te-ei o homem mais rico e poderoso da face da Terra.

Atená convocada aproximou-se, um tanto quanto ruborizada pelas circunstâncias, mas julgando estar diante de um de seus futuros afilhados, heróis transformadores do mundo, lhe falou:

– Se me escolheres, far-te-ei o homem mais culto, inteligente, sagaz e perspicaz de todo o mundo; serás conhecido como o Sábio, para todo sempre.

Afrodite desfilou frente a Páris, com o encanto que lhe era próprio, percorrendo-o com o olhar que desnuda; silenciosamente o chamou para que ele  dela se aproximasse.  Seus corpos quase se tocaram e a voz da deusa ressoou envolvente:

– Realmente, és um belo espécime, criatura!  Precisas, entretanto, de uma mulher, a mais bela entre todas, para acompanhar-te.

 É…  sempre desejei alguém assim! Como sabes?

– Que tal Helena, rainha de Esparta, casada com Menelau? Tu a conheces?

– Não, nunca ouvi dela contar. Mas, como poderia eu tê-la, sendo casada com um rico aqueu?

– Meu jovem, não sabes que eu existo para resolver esses impasses?

E o silêncio, não muito longo, se fez. Diríamos proposital.

– De outra parte, prosseguiu a deusa, se me escolheres, Helena será tua, e te desejará com grande paixão!

E Páris  coroou   Afrodite:  a mais bela!

Interessante atentar para o momento mítico: ao homem-ego-consciência foi outorgado o direito de julgar e, ao julgar, escolher e, ao escolher, conhecer. Entre riqueza-poder, sabedoria-conhecer e beleza-amar, Páris escolheu o amor da mulher mais bela, e… comeu a maçã!

E, assim aconteceu o primeiro concurso de beleza!

Maria Zelia

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