O Primeiro Juri Olímpico

Dizem que Posídon era considerado senhor em Atenas quando  Palas Atená chegou para disputar o patronato da cidade.

Conta-se que, diante do impasse, uma prova de méritos aconteceu e foi solicitado  que cada um oferecesse um presente à cidade.

Posídon, com seu divino tridente, fez surgir das rochas, fonte borbulhante de águas… salgadas. O divino olímpico, tão afeito as águas do mar, esqueceu que os míseros mortais precisavam de água-doce para viver. Mesmo assim seu feito foi considerado grandioso como obra ornamental, deleitando a todos que fitavam tão majestosa criação. E como precisamos de figuras estéticas para embelezar a vida!

Outra versão conta que Posídon criou o cavalo, fazendo-o surgir das profundezas da terra, dando-o como presente, para a divina competição, com o que os homens se maravilharam.

Palas Atená chegou com uma árvore que não era das mais frondosas; pelo contrário, as oliveiras de Atená reclamariam por décadas, senão por séculos, para se tomarem vistosas.

Para que servia se não era adorno, não tinha a majestade dos carvalhos nem a imponência dos cedros?  Seus frutos eram tão miúdos, amargos, rígidos e pouco uso como alimento e, mais, para se tornarem comestíveis precisam passar meses, senão anos, descansando nas águas salgadas de Posídon?

Então as Deusas atentaram para os caroços!

Ah! Os grãos, estranhas sementes, mágicas criaturas como somente elas podem ser! Produziam óleos que conservavam as carnes das presas abatidas,  besuntavam os corpos e amaciavam os músculos cansados pelos embates da guerra e mais, mais que tudo, alimentavam os candeeiros sustentando a chama nas noites prolongadas.

O fogo da vida entrou em Atenas e a cidade se regozijou.

Posídon, inquieto, reclamou pela decisão de Zeus que, do alto de sua majestade, preferiu não opinar deixando que seus tutelados o fizessem criando dessa forma o primeiro júri; venceria a maioria!

Doze eram os olímpicos, tendo de um lado seis deuses e de outro seis deusas.   Héstia ficou deslumbrada com a emergência de uma fonte de fogo para o lar.   Deméter olhou para o caroço olival e o soube criatura sua, germens da vida, emergências portadoras do mistério da natureza. Hera se deleitou com o lume que sustentaria a congregação da família. Afrodite se encantou com a possibilidade de sentir os corpos deslizarem mais suavemente nos encontros amorosos. Ártemis, a incansável Sagitária, atentou para o tronco frondoso que se forjaria ao longo dos  séculos, local de repouso de seus sagrados animais, a par de vislumbrá-lo sustentação dos leitos conjugais.  Palas Atená contemplou, apenas contemplou.

O primeiro Júri Olímpico aconteceu e o julgamento se fez. Atená saiu vencedora  recebendo seis votos. Posídon apenas cinco pois Zeus não votara.

Atená aprendeu uma grande lição e quando instituiu o júri popular que avaliou o crime de Orestes, seguiu o modelo Olímpico, mas alterou o número dos jurados para doze, tomando a si o voto do desempate. Por que Palas Atená alterou o júri criado por seu próprio pai?

Talvez por ter sofrido junto com suas cidadãs atenienses o amargor da Vitória! Assim, embora não saibamos porquê, a estatística mostra que o número de fêmeas tende a ser maior que o número de machos, na população global de humanos. E, em Atenas dos tempos míticos, esse fenômeno também deveria ocorrer. Junto com os Olímpicos, toda a cidade de Atenas votou e venceu o voto das mulheres.

O castigo, entretanto, por duas vezes se fez presente. A partir de então e por muitos e muitos anos, senão por séculos, as mulheres perderam o direito de votar e eleger suas representantes. Por outro lado, Posídon, injuriado por não ter sido indicado para o patrono de Atenas, retirou-se ensandecido, provocando o desaparecimento de todas as fontes de água-doce da região do Peloponeso.

Tal fato concorreu para que grandes áreas desérticas se formassem e a fertilidade da terra se quedou: tristeza e sofrimento se anunciaram e feridas desérticas da desolação testemunharam a ira de Posídon: afinal ele era o pai de Teseu, o grande herói de toda Ática; alimentava com peixes o futuro povo grego;  embalava os nautas em  viagens arriscadas.

Como Atenas ousara não escolhê-lo?

Seu prestígio público estava abalado!

Concessões foram feitas e a cidade de Trezena passou a ser partilhada equitativamente por Posidon e Hera, numa condição que desagradou a ambos.

Foi somente o amor por Amímone, uma danaíde, que fez Posídon voltar atrás e permitir que o rio Lerna voltasse a correr permanentemente na região da Argólida, trazendo de volta a fertilidade a região.

A vitória tem sabor amargo quando desencadeia iras sombrias que atingem a todos.  Vencidos somos pelo deserto.

Maria Zelia

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*