Os Heróis também choram

Perseu e sua mãe Dânae, após vagarem sem destino, mar afora, castigados e expostos pela fúria do avô-pai Acrísio, chegaram à ilha de Sérifo. Foram  retirados das águas de Posídon pelas redes do pescador Dicteis, irmão do rico Polidectes, rei mítico e usurpador do trono.

A temática do litígio entre irmãos acontece de forma clara e sombria na mítica de Perseu.  Cada personagem cindido de seu duplo assumirá uma polaridade simbólica, conjugando em si a parelha da discórdia fraterna ou expressando a dificuldade da convivência com a diversidade, com a própria imparidade.

A simbólica da oposição ao outro reclama pela emergência do herói transformador que traga a solução para o conflito arquetípico.

Perseu, quando retornar de sua longa jornada urobórica, retomará pendências hamárticas impressas em sua própria alma, herança de seus ancestrais, e, encontrará a solução para tão amargas disputas, propondo a troca dos  reinos de Argos com  Tirinto, reatando dessa forma as relações com o  primo-irmão  Megapentes.

Entretanto o herói maior da solaridade, filho da chuva áurea divina, o mais protegido de todos os filhos de Zeus, um dia chorou.

Polidectes faz aniversário e sendo aquele que recebe presentes, resolveu comemorar o evento com um grande  banquete para que seus súditos pudessem presenteá-lo. Assim que chegaram, questionou-os sobre qual o presente iria receber. Todos acharam de bom alvitre oferecer-lhe um belíssimo cavalo. O rico poverello Perseu nada tinha para dar ao aniversariante. Injuriado com sua pobreza, e mais que isso, enciumado com o assedio que o rei Polidectes tão acintosamente derramava sobre a bela  Dânae,  o herói de Perseu aconteceu.  Quando inquirido sobre qual o presente   respondeu de forma inflada!

– Se um presente tivesse que oferecer, eu lhe daria a cabeça de Medusa!

Incontinente o Self, que aguardava a emergência heróica, não titubeou; pelas falas do rei mítico fez-se presente,  exigindo o cumprimento da tarefa heróica:

 Pois então, meu caro, vá buscá-la!

Perseu assustou-se quando se viu diante de si mesmo, se auto imputando a jornada de vida,  tarefa heróica da transformação da alma!

E ai reside o mistério!

Quer nos parecer que o processo de individuação se serve da emergência heróica, exigindo do próprio ser a ação transformadora, pela qual será configurado seu nome, sua identidade psíquica, sua própria imparidade.

O ego assustado se encolhe e se desespera uma vez que ousou demais, prometeu o insólito, ultrapassou o interdito, aconteceu na hybris e… ainda não está pronto. Mas, herói que se preza,  se impõe e cumpre o destino.  Ao retirar-se do castelo, já vencida a própria sandice, Herói e Ego se confundiram. A solidão assolava a alma.  No recôndito do ser, Perseu  sentiu o peso do destino. Como cumprir o que prometera! Como honrar a palavra!

Perseu – Ego sentou-se  numa pedra  e chorou seu desespero.

– Pai, porque me abandonaste?

Mas Self  que é Self não abandona. E o grande Zeus, pai divino do herói o assiste por seus emissários divinos. Assim, Atená apresentou-se diante do nosso jovem herói e entregou-lhe o escudo protetor. Hermes trouxe-lhe a espada. O caminho para as Gréias foi ensinado e quando Perseu lá chegasse outras benesses lhe seriam concedidas.

A partir desse momento a artimanha do herói transformador se fará presente concorrendo para que Perseu iluda as Gréias, roubando-lhes o único olho vigilante e exigindo das mesmas a informação tão necessária: Qual o caminho que leva às Górgonas?

Perseu, assim informado, toma posse do capacete da invisibilidade, das sandálias voadoras, do quíbisis (embornal que conterá a cabeça de Medusa) e parte para as terras do ocidente. O herói vai à busca de seu nome, de sua própria identidade.

Caminha em direção à morte do sol para cortar a cabeça do monstro que petrifica e enrijece a consciência; Perseu assistirá então ao nascimento do espírito, representado pelo cavalo alado Pégasus, contido nas entranhas da mais perigosa de todas as Górgonas: Medusa está vencida!

O herói cumpriu o rito iniciático; assume Pégasus e volta-se para as terras do oriente, ou seja, caminha para o nascer do sol, buscando a anima pertinente ao novo tempo da Consciência.

Perseu significa o que destrói cidades e somente após sua catábase ao reino da noite, terra das Górgonas, e conseqüente libertação do espírito aprisionado,  que o eleva para a sublimatio da compreensão, poderá casar-se com sua complementar anima Andrômeda, ou seja, aquela que reina sobre os homens.

A parelha da coniunctio está configurada.  Perseu–Andrômeda darão origem à família dos Pérsidas da qual nascerá Héracles, o maior herói de todos os tempos

Mas não nos esqueçamos: Os heróis também choram!

Maria Zelia

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