Por que o Galo canta antes do sol nascer

Hefesto, um odd number,  um mutilado, deus dos nós, deus ferreiro e das forjas, aquele que produz as mais belas jóias, teve por mulheres as mais belas Deusas; inicialmente esteve unido a Charis, a Graça por excelência, conforme conta Homero e também com Aglaia, a mais jovem das Cárites, segundo Hesíodo.

A última de suas esposas foi Afrodite; para consegui-la  Aephaistos,   aquele que incendeia as águas[1],  ofereceu um  vultuoso dote ao Crônida, pela mão da  Deusa da Beleza.  Lembremo-nos que Homero fez Afrodite filha de Zeus e Dione. A tradição anterior a Homero, e posteriormente cantada por Hesíodo, faz  Afrodite nascida de espumas (Aphrós) das águas do mar, onde caíra a amputada genitália de Crono.

Junito, o grande mestre que sempre vale lembrar, qualifica essa união como exemplo de uma coniunctio oppositorum, mas que, dadas as circunstâncias, não conseguiu gerar uma coincidentia oppositarum.

Hefesto, o horror da  feiúra, estava  casado com o esplendor da beleza! Por outro lado, o que incendeia as águas casava-se com a nascida das águas.

A Deusa do amor, antes de tudo uma Deusa da Vegetação, precisa ser fecundada, pois, por si mesma é um grande vazio. Afrodite ressentia-se pelas prolongadas ausências do marido, sempre às voltas com suas forjas. Afrodite não gerou filhos com Hefesto. Diante do impasse, preencheu a solidão do leito com o amor de Ares, deus da  Guerra, na tentativa de compor um novo complexo oppositorum.

Hélio, o condutor do carro do Sol, aquele que tudo vê, muito fofoqueiro, uma vez que  está sempre  vasculhando a intimidade de todos, tão logo descobriu os amantes, os denunciou a Hefesto, que já sabia das infidelidades da esposa. Tornando-se o fato rex publica, o deus coxo precisou tomar-se de fúria e, pulando numa só perna, prometeu vingança. Urdiu e tramou e, em suas fabulações maquiavélicas, uma rede metálica, de fios invisíveis, teceu; forjou armadilha indestrutível, como só ele sabia criar e colocou-a por sobre o leito conjugal para prender os amantes.

Logo pela manhã, com a alegação de que iria para Lemnos, cidade do povo Síntio, Hefesto partiu, anunciando que se demoraria por alguns dias e noites.

Ares, o mais odioso de todos os imortais que habitam o Olimpo[2], prontamente se apresentou à amada convidando-a para com ele partilhar o leito. Sempre  precavido, porém, deixava o servo Alectrion de plantão o qual deveria, com antecedência,  avisá-lo sobre o nascer do dia.

O jovem sentinela, cansado das lides diurnas e noturnas de seu amo, adormeceu e assim; Helio que tudo vê e não perde a hora, conhecedor de todas as mazelas do mundo[3]surpreendeu os amantes e tudo relatou a Hefesto. A armadilha projetada funcionara a contento e, quando o marido traído retornou,  encontrou os amantes aprisionados.

A cólera assomou a seu peito e rebentando num grito espantoso que todos os deuses ouviram[4]. Hefesto  invocou a presença de Zeus, reclamou de Afrodite, acusou Ares de desonrá-lo e justificou-se com sua deformidade dizendo que a culpa era de seus pais!

– Melhor fora se nunca me houvessem gerado[5].

Os deuses afluíram à casa  de bronze: Posídon, Hermes, Apolo, um a um foram chegando.  As deusas abstiveram-se de entrar pelo pejo que sentiram.

Ao contemplarem o artifício de Hefesto, os deuses caíram em profusas gargalhadas. Mas, para nosso espanto, o que Hefesto reclamava é que os dotes que havia pago ao Crônida Zeus, fossem-lhe ressarcidos por Ares!

Posídon interferiu sugerindo que os amantes fossem libertados, comprometendo-se que a dívida seria paga por Ares e que, em última instância, por ela responderia!

Hefesto respondeu, cordato:

– Não fica bem recusar-me a aceitar o penhor, que apresentas[6].

Assim  Ares e Afrodite foram soltos.  Para a Trácia se mandou Ares e Afrodite recolheu-se na Ilha de Chipre para ser banhada e ungida pelas Graças com óleo sacro e perene “[7].

Quanto ao jovem Alectrion, consta que sofre até hoje com sua punição uma vez que foi metamorfoseado em Galo e obrigado a cantar eternamente por toda madrugada, antes do Sol nascer.

Maria Zelia

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